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Crítica | ‘Soul’, da Pixar, é uma lição da magia de estarmos vivos!

sábado, 9 de janeiro de 2021

/ Por Jefferson Victor
Foto: Divulgação/Pixar




O que torna os filmes da Pixar tão especiais? A maioria deles traz tramas simples, mas cheias de coração e afeto, são filmes que vão além das animações que alegram as crianças e que os pais toleram numa boa, muito pelo contrário, são filmes aos quais os pais arrastam os filhos. Filmes como "Toy Story", “Monstros S.A”, “Up - Altas Aventuras”, “Divertida Mente” e etc, marcaram a vida de muita gente e arrancaram lágrimas de muito adulto que nem tentava escondê-las. 

Talvez seja por isso, pela falta desse encanto, que “Dois Irmãos - Uma Jornada Fantástica”, um dos últimos filmes a chegar aos cinemas antes da pandemia, seja apenas razoável. É uma aventura divertida, mas nada além disso. A verdade é que o grande lançamento da Pixar para 2020 não era a aventura familiar de Don Scanlon, mas sim “Soul”, de Pete Docter (“Monstros S.A” e “Divertida Mente”), que estreou no último dia 25, na Disney+, após ter a estreia nos cinemas adiada algumas vezes.

Soul” é o primeiro filme da Pixar feito para o público adulto - as crianças vão se divertir, há bastante humor para todas as idades, mas o foco do roteiro de Docter e Kemp Powers é mais maduro. O filme acompanha Joe (Jamie Foxx), um professor de música de quarenta e tantos anos que acredita ter deixado passar a chance de viver seu grande sonho: tocar jazz profissionalmente.

Foto: Divulgação/Pixar




Quando ele consegue uma oportunidade, faz uma audição brilhante, mas cai em um bueiro e acaba no Além. Sua alma, porém, não está pronta para fazer a passagem. Joe, então, foge do Além e acaba no Pré-vida, um local que prepara as almas para a vida na Terra. Joe se disfarça de mentor da cínica alma 22 (Tina Fey) e faz um acordo com ela, se ele ajudá-la a ver um sentido em viver, a encontrar sua “faísca de vida”, ela dará o passe de vida na Terra para ele retornar a seu corpo enquanto ela permanecerá de boa no Além.

Soul” é literalmente um encontro de duas almas distintas que acabam aprendendo com suas diferenças, é um filme sobre o sentido da vida, mas que não mergulha em religião alguma. O pós-vida é meio uma mistura de “The Good Place” com uma startup operando um coworking, um lugar onde tudo funciona ao mesmo tempo.

Apesar de o Além ter uma construção interessante, “Soul” funciona melhor quando está entre os vivos. É bonita a maneira como o filme de Pete Docter destaca o poder da arte e da cultura na transformação de uma pessoa e na formação de seu caráter. Em “Soul”, a personalidade é aleatoriamente escolhida pelos conselheiros do Além, mas o resultado final depende de como a pessoa age e o que consome em vida.

Foto: Divulgação/Pixar




A não tradução do título para o português, inclusive, ajuda na compreensão do texto - “Soul” (“Alma”, em inglês) pode significar tanto as almas quanto a música, ambas transformadoras. A trilha sonora é impecável, com canções de jazz originais de Jon Batiste e trilha minimalista de Trent Reznor e Atticus Ross.

Soul” é sobre música, é sobre vida, mas é mais ainda sobre sonhos: qual o sentido de se viver sem tê-los, sem correr atrás deles? Nesse ponto, o filme se assemelha muito a “Up - Altas Aventuras”, ainda que não tenha a mesma carga dramática. O fato de talvez não ter uma cena como o final de “Toy Story 3” ou a despedida de Bing Bong em “Divertida Mente” não faz de “Soul” um filme menor, mas sim um filme mais maduro. A emoção talvez não funcione tão bem no público mais jovem, mas pode atropelar como um caminhão o público acima dos 35. Se o sonho não é alcançado, a vida é um fracasso?

Mesmo sendo um filme adulto e o primeiro filme da Pixar com um protagonista negro, “Soul” não é tão diferente assim de outros filmes do estúdio. O clima de parceria, de camaradagem está presente como em tantos outros, mas sua execução é mais ousada, menos infantil. Tecnicamente, o filme de Pete Docter e Kemp Powers é perfeito, criando uma Nova York realista, viva, cheia de calor humano e música, muita música, enquanto o Além é mais frio, mas não menos interessante.

Foto: Divulgação/Pixar




Belissimamente animado, Soul”, é uma viagem lúdica sobre a finalidade humana e acerca da universalidade do processo de autodescoberta. Conduzido por uma viva ambientação e por uma trilha sonora que em muito eleva a sua representatividade, a animação cativa ao estabelecer uma ótima dupla de protagonistas e por jamais se esquivar de temas importantes e que não devem flertar com simplismos. Determinando a relatividade e a importância das diversas paixões humanas, o filme é uma carta de amor àqueles que enfrentam dificuldades na busca por um propósito, mostrando que estes jamais poderão ser alcançados sem o auxílio daqueles ao nosso redor.

NOTA 9.0

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Produzido por Jefferson Victor